Dicas práticas

A Hipótese do Monitor de Stephen Krashen

© Rubens Queiroz de Almeida

Hipótese do Monitor, proposta por Stephen Krashen, é um dos cinco principais componentes de sua teoria sobre aquisição de segunda língua, que tem revolucionado a maneira como pensamos o aprendizado de idiomas desde sua concepção. No seu cerne, a Hipótese do Monitor proporciona uma compreensão de como a gramática ensinada conscientemente afeta a produção linguística de aprendizes de um segundo idioma.

Krashen distingue entre dois processos centrais na aquisição de línguas: aquisição e aprendizagem. Aquisição é um processo subconsciente, no qual aprendizes ganham proficiência pela exposição a uma língua de maneira natural e informal, semelhante ao processo de como crianças adquirem sua língua nativa. Aprendizagem, por outro lado, é um processo consciente que envolve o estudo deliberado de regras gramaticais e estruturas linguísticas.

Hipótese do Monitor insere-se precisamente nessa dicotomia ao sugerir que o aprendizado consciente não gera nova linguagem, mas sim atua como um “monitor” – um corretor que funciona após a produção inicial da linguagem adquirida. O uso do monitor é essencialmente corretivo, permitindo que o aprendiz edite ou corrija sua saída linguística. No entanto, existem condições específicas sobre quando e como este monitor pode ser efetivamente usado.

Três condições são propostas por Krashen para a operação deste monitor:

  1. Tempo Suficiente: O monitor precisa de tempo para funcionar. Isso significa que situações onde a comunicação precisa ser rápida, como em conversas espontâneas, dificilmente permitem o uso eficaz do monitor. No entanto, em situações onde o aprendiz pode refletir e pensar cuidadosamente, como na escrita ou durante exames orais preparatórios, o monitor é mais ativo.
  2. Foco na Forma: Para que o monitor seja usado, o aprendiz deve estar focado na forma, não apenas no conteúdo. Isso requer um nível de atenção ao detalhe particular, como morfologia ou regras sintáticas da linguagem-alvo. Quando este foco sobre a estrutura gramatical está ausente, a capacidade de monitoramento é deficiente.
  3. Conhecimento das Regras: Por último, para que o uso do monitor seja possível, o falante deve possuir, ao menos, um conhecimento passivo das regras gramaticais. Sem esta familiaridade básica, o aprendiz não pode aplicar as regras conscientemente.

Krashen argumenta que a eficácia do monitor varia de acordo com o tipo de aprendiz. Ele classifica aprendizes em três tipos: os sobre-utilizadoresutilizadores ótimos e os subutilizadores do monitor.

  1. Sobre-utilizadores são aqueles que, mesmo em situações onde o monitor não é necessário, aplicam-no excessivamente. Isso pode criar hesitação e fluidez reduzida, como tentativas constantes de correção. Estas pessoas muitas vezes estão altamente focadas em precisão gramatical e demonstram ansiedade quanto à sua produção linguística.
  2. Subutilizadores, ao contrário, são aprendizes que tendem a depender exclusivamente de sua competência adquirida e quase nunca usam o monitor. Isso pode resultar em maior fluência, mas também em mais erros gramaticais. Estes podem estar menos informados sobre as regras gramaticais do idioma ou preferir uma abordagem mais holística.
  3. Utilizadores ótimos encontram um equilíbrio entre precisão e fluência. Sabem quando usar o monitor de forma eficaz para evitar grandes erros, mas não o aplicam de forma que interfira na comunicação natural.

Hipótese do Monitor tem importantes implicações para a pedagogia da língua. Em primeiro lugar, destaque-se que ela defende atividade comunicativa real como meio primário de inspiração para aquisição. Muitos métodos tradicionais, que priorizam o aprendizado consciente e rígida correção gramatical, podem dar grande ênfase ao uso do monitor, mas falham em promover a discussão autêntica e usufruto da linguagem.

Para apoiar aprendizes, educadores devem criar um equilíbrio nas atividades de ensino que favoreçam tanto a aquisição natural como oportunidades de prática formal onde o monitor possa ser usado apropriada e substancialmente. Atividades devem incluir tanto exercícios de uso consciente de regras, como oportunidades de expressão onde estas possam ser aplicadas de maneira menos restritiva.

Na prática, os instrutores podem fornecer correção implícita durante confrontos comunicativos informais, enquanto utilizam testes mais formais ou trabalhos de escrita para lidar com práticas monitoradas. Por exemplo, professores podem engajar alunos em conversas conduzidas onde eles concentrem-se na fluência e compreensão, enquanto sessões de revisão podem ser dedicadas a examinar e corrigir documentação.

Embora Krashen argumente que o ênfase excessivo no aprendizado de regras possa criar aprendizes que sejam sobrecarregados por preocupações com precisão, dificilmente argumenta-se que um conhecimento fundamental de regras não seja necessário. É através do casamento entre aprendizado e aquisição que surge um domínio eficaz da linguagem. Uma aculturação balanceada entre métodos comunicativos e de gramática explícita constitui a chave no desenvolvimento de programas de aprendizagem apropriados.

Outro ponto interessante implica a adaptabilidade do professor: professores adequados desempenham o papel duplo de facilitadores de oportunidades criativas de uso da língua, enquanto também agem como guias eficazes através de labirintos gramaticais. Monitorar o progresso de cada aluno, ajustando estratégias de ação para atender suas especificidades e encorajando o uso efetivo do monitor nas ocasiões corretas aprimora a formação de competências de linguagem de acordo com o modelo proposto por Krashen.

Em síntese, a Hipótese do Monitor proporciona uma lente através da qual podemos compreender o impacto das técnicas formais de aprendizado consciente sobre substâncias adquiridas na dependência linguística. Ela reconhece a relevância de ambas as vias de conhecimento na consecução da proficiência linguística. Equilibrar a necessidade do aprendizado formal enquanto encoraja modos naturais de uso da língua pode propiciar um ambiente mais robusto e motivador, conduzindo a resultados linguísticos mais eficazes e completos.

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